terça-feira, 13 de abril de 2010

Dust - Parte 1

-Ah Dust. Se você matar essa, eu vou embora!
-E ainda paga a conta, Marcão!
-Beleza, pó jogar!
-Lá vai...

Toc!

Bola 1, caçapa do meio. Nem deu aro. O miserável ganhou mais uma. Foda!. Hoje eu estava determinado a ganhar uma desse safado. Já era meia-noite e eu não havia tomado nem um gole de cerveja pra não prejudicar os reflexos. Dust já tinha secado um carro-pipa.

- E aí, Marcão? Vamo outra ou vai desistir?
- Vamo outra! Fudido, fudido e meio!
- Tá bom, Marcão. Agora vou jogar na brincadeira, pra ver se você ganha uma, hehe.
- Porra nenhuma! Jogue sério, Dust. Vou começar a beber e você vai ver! A vingança vem a cavalo!

Mas não ganharia nenhuma essa noite. No fundo, eu sabia disso. O cara é bom de mira. Se ele estivesse no exército alemão na segunda guerra, estaríamos freqüentando a igreja nazista quadrangular aos domingos.

- Quer começar, Marcão?
- Não. Quem ganha começa. Vá lá!
- Tem certeza?
- Claro!
- Então tá!

Toc!
Toc!
Toc!
Toc!
- Peraí, Dust! Vamo errar uma vez aí...
Toc!
Toc!
- Ahhhh... Errei! E essa tava mortinha...

Jogando com Dust, algumas coisas me impressionavam. O cara era quase cego, usava óculos fundo de garrafa e vivia apertando os olhos, mostrando dificuldade até pra ler textos com fontes bem graúdas. Lembro que, uma vez, a turma do setor saiu pra almoçar, no seu carro(coisa raríssima de acontecer). Ele pediu pra Fabi, que estava no carona, limpar seus óculos. Durante os 5 segundos que ela levou limpando as lentes, ele conseguiu subir a calçada e acertar uma banquinha de ambulante,
em frente a um ponto de ônibus. Chicletes, cigarros e chocolates voaram pra todo lado! Quase causava uma tragédia.

O mais intrigante é que, jogando sinuca, seus óculos ficavam pendurados na ponta do nariz, e ele baixava a cabeça de modo a não olhar através das lentes. Imcompreensível. O cara não conseguia manter um carro em uma pista de três faixas mas não errava uma tacada! Quando perguntei sobre isso, ele me disse: - Ah, cara! Tem coisa que vejo melhor sem óculos.

Outra coisa interessante é que, por mais que ele bebesse, jogava com a mesma perícia da primeira partida. Eu, ao contrário, já espatifei até o prato de torresminho com a bola branca.

Toc!
Toc!
Toc!

- Outra ficha, Marcão!
- Pelo menos eu matei cinco, hein?!
- Éééé. Você tá melhorando, velho!
- Dust, você treina esse treco em casa, né? Fala a verdade...
- Que nada! Só jogo quando venho aqui! E já tem uns dois meses que não venho.

E era verdade. Eu já tinha ido na casa do cara uma vez e realmente não havia mesa de sinuca lá. Ele também tocava guitarra. Uma vez combinamos de fazer um som. O cara dominava improvisando solos de blues. Eu era um asno perto dele. Rearranjava minhas frases e ainda fazia sugestões: "Tem que viajar mais, Marcão". Tocar com Dust era desafiador, sua técnica e criatividade eram impecáveis. Ele se aquecia tocando frases de Paganini que para mim eram impossíveis de executar na guitarra. Pra completar, sua coleção de instrumentos e equipamentos era invejável. Anos de salário estavam investidos naquele cômodo.

- Dust, pra mim chega, mano!
- Beleza. Vamo embora. Amanhã tem trabalho!
- Da próxima, jogamos lá no Confraria.
- Porra, Marcão! Lá vem você com essa conversa. Por que não jogamos aqui mesmo?
- Ah cara! Lá tem ar condicionado, o chopp é gelado e saem outros petiscos, além desse torresmo duro!
- Mas é cheio de pati e playboyzinho, velho! Não dá pra mim não.
- Colé, Dust?! Você só gosta de vir nesta espelunca quente e fedorenta. Parece com o bar do filme "Um Drink no Inferno"! Além disso, você nunca foi lá no Confraria, seu sacana!
- Nunca fui mas eu tou ligado como é...

Dust era um sujeito esquisito mesmo. O povo lá do trabalho tem razão. Só eu mesmo me dava bem com ele. Acho que por causa de alguns interesses em comum, como cerveja, guitarra e o fato de sermos conterrâneos. Verdade, o cara era da Bahia, apesar de não parecer sequer ser do Brasil (nem do planeta Terra). O fato é que ele é muito anti-social. Quase nunca participava dos encontros da equipe, não convidava ninguém pra tomar uma cerveja após o expediente e nem mesmo almoçava com os colegas. Na verdade, ele não almoçava mesmo. Usava seu intervalo pra ler livros de história na sala de reunião, comendo um Big Mac e bebendo um balde de Coca-Cola. Além de seu comportamento introspectivo, Dust também era dotado de uma peculiar falta de sensibilidade no que diz respeito a relacionamento interpessoal. Ele não sabia suavizar seus pensamentos antes de enviá-los para a boca. Magoava as pessoas brincando. Era como o Nicholson em "Melhor é Impossível".

Lembro-me bem do nosso primeiro diálogo, quando acabei de chegar no setor. Dust foi alocado para ser o meu tutor, ensinando-me todo o trabalho e tirando as minhas dúvidas. A primeira coisa que ele me disse foi que estava detestando essa idéia, mas que se "empenharia" pra não me prejudicar. Afinal de contas, eu não tinha culpa disso. Eu evitava fazer perguntas, pois ele era quase sempre monossilábico e não demonstrava qualquer vestígio de boa vontade em responder. Falava sem sequer olhar pra mim. Certa vez, eu precisava de uma informação sobre um método estatístico pra concluir um relatório... Nessa época, ainda chamava Dust pelo nome:

- Júlio, como faço o cálculo pra este gráfico?
- Velho, qual é sua formação acadêmica?
- Sou formado em Ciência da Computação.
- Pegou matéria de estatística?
- Sim. Duas.
- Então você deveria saber fazer isso.

E então continuou lendo seus e-mails atentamente. Meu sangue ferveu. Levantei e fui dar uma volta no pátio pra relaxar. Na volta, havia uma folha impressa na minha mesa. Uma reportagem da Folha de São Paulo, anunciando a turnê de Steve Vai no Brasil. Quando apanhei o papel ele gritou da mesa dele:

- Ô Marcão, já ouviu falar desse garoto aí?
- Claro!
- Toca direitinho, hein?!
- E como!
- Vamo assistir em Sampa?
- Com certeza! A oportunidade de uma vida!

E sem que o cara demonstrasse qualquer remorso, continuamos nosso dias.

Com o tempo, me acostumei. Até passei a achar divertido, pois passei a retribuir "patadas" fenomenais. Ele sempre encarava numa boa, nunca se ofendia. Descobri como é bom concluir alguma coisa, positiva ou negativa, e mandar bala sem ponderações. Há um tempo atrás, Dust estava trabalhando muito em um relatório importantíssimo que iria para a diretoria da empresa. Na manhã da segunda-feira que ele deveria enviar o relatório, o cara chegou lá com olheiras. Veio falar comigo arquejando:

- Marcão, você viu o relatório de resumo que te enviei por e-mail? Fiz algumas alterações em casa, ontem à noite.
- Vi.
- E o que achou?
- Achei uma porcaria!
- Sério?
- Claro. Você simplesmente "envernizou" as informações que já estão disponíveis em nossos sistemas. Não tem nenhum dado novo, nenhuma consolidação e nada que possa ser usado como subsídio à tomada de decisão. Além disso, os dados estão desorganizados, os gráficos estão confusos e já identifiquei três números inconsistentes.Não dá nem pra usar como rascunho, pois tá tão lotado de informações que não sobra um centímetro branco na página. Acho que você deveria jogar no lixo. Inclusive, recomendo que jogue na lixeira de materiais não recicláveis.

Dust pegou a página sério. Ajeitou os óculos e olhou atentamente para o relatório, alisando a barba. Depois, dirigiu-se às lixeirinhas de coleta seletiva, amassou a folha e depositou em uma delas. A de materiais não recicláveis. Voltou à minha mesa e disse:

- Vou fazer umas alterações e depois te mostro.
- Beleza, velho.

Eu acho mesmo que Dust tem um parafuso a menos. Quando ele nasceu, seu organismo esqueceu de ativar todas as regiões do cérebro. Principalmente uma das regiões mais importantes para a sobrevivência humana, a da mentira. Uma vez, Dust foi, com muita insistência, para um Happy Hour. Era despedida do Arnaldinho, o chefe estava se aposentando. Arnaldo adorava Dust, como todos os outros chefes. Parece difícil de entender isso sem o conhecimento de que o sacana era, de longe, o melhor funcionário do setor. Talvez até de toda a empresa. Quando a merda ia para o ventilador, Dust era o homem que limpava tudo em dois minutos. Acho que sua competência era uma das dicas mais importantes que os chefes passavam aos sucessores. Na primeira bronca da gestão, o novo chefe já sabia quem chamar.

Após o jantar e algumas cervejas, ficamos até mais tarde apenas eu, Dust, Carlinha, o namorado de Carlinha e Madalena. Exceto pela tagarelice desvairada da Madá, o papo tava muito legal. Lá pras duas da manhã, Carlinha e o namorado levantaram-se:

- Bom, gente. A carruagem virou abóbora. Chegou nossa hora. Vamo, amor?
- Vamo sim. Já tomei bem mais do que devia...

Foi só Carlinha despedir-se que Madá começou com a fofoca:

- Não sei como ela não tem vergonha. Uma mulher de quarenta e poucos namorando um garotinho de vinte. Eu, hein?!
- Mas ela é divorciada, Madá. Qual o problema? - Retruquei
- Marcão, não tá vendo que isso é um absurdo? Ela só faz isso pra aparecer! Tirar onda de gatinha! Só porque botou peitos novos, acha que voltou a ser adolescente. Ela é muito tirada, isso sim. Ainda passa a noite toda se gabando dos filhos, que pra ela são os mais inteligentes do mundo. Ela deve ter é comprado a prova do vestibular que eles fizeram...
- Madá! Eles passaram na Federal! Não é fácil conseg...
- EU SEI LÁ COMO, MARCÃO!!! O fato que Carla só vive de contar vantagem. Ela se acha melhor que todo mundo. Trabalhar que é bom ela não quer. Como é que você acha que ela foi promovida no ano passado? Deve ter dado pra metade dos diretores...

Foi aí que Dust, que até o momento apenas saboreava sua bebida com o olhar no vazio, interrompeu:

- Madá, posso dar minha opinião sobre o assunto?
- Tá bom, Júlio. Fale.
- Eu acho que você deveria procurar mudar de setor. Na boa.
- Por quê, Júlio?

Quando Dust respirou fundo, franziu a testa e começou a alisar a barba, eu decidi fingir que estava mexendo no celular. Ficaria apertando os botõezinhos aleatoriamente e olhando para a telinha até ele terminar de falar. Já conhecia a peça o suficiente pra saber que viria bomba por aí... Só me restava rezar para que o bombardeio não atingisse nenhum orgão vital da Madá. Apesar de tudo, gostava daquela fofoqueira. Dust tomou mais um gole e iniciou seu discurso fatal:

- Pelo seguinte: Sei que as mulheres têm um senso de competição muito desenvolvido, e percebo que o seu direciona-se para a Carlinha. E Isso só vai te ferir cada vez mais. Sabe porquê? Carlinha é uma mulher extremamente simpática e querida por todos, além de ser altamente competente e inteligente. Todos do prédio - exceto você - admiram ela. Além disso, é bonita e gostosa! Malha todo dia e pedala uns 100km por semana. Quando ela entra no elevador, a cuecada suspira. Pra completar, ela tem filhos muito estudiosos, que passaram de primeira em todos os vestibulares que fizeram. Enquanto você tá aí, gorda e preguiçosa como uma porca, que não levanta do lugar nem pra botar papel na impressora, casada com um bêbado que já deu vexame até em festa da empresa e com um filho que vive perdendo de ano e que já deve ter fumado até folha de alface. Eu acho que você não deve nem estar gozando, porque... [CONTINUA]

sábado, 13 de março de 2010

Chuck

Ah!
Um armário com cabide! O último!
De fuder!
Depois de malhar vou vestir minha roupinha sem amassados.

Além disso, o vestiário tava vazio e silencioso, sem aquele monte de cueca trafegando nem aqueles papos chatos de serviçal público "o valetik vai aumentar?", "De quanto será o reajuste este ano?", "E o plano de carreira?"...

Coloquei minha mochila em cima do banco e comecei a trocar de roupa. De repente, a porta se abre com um estrondo! Entrou aquele serviçal maligno com crachá do legislativo (logo o legislativo!), um sujeito que eu nem conheço, mas já não fui com a cara. O maluco era fortão, carrancudo e sustentava uma careta de Chuck Norris em zona de combate. Além de mim, era o único que não falava com ninguém. Ele escolheu o banco mais distante possível e foi se trocar.

Acabei de me vestir, peguei minha mochila, minha roupa e fui colocar tudo no armário, com cabide. Quando cheguei perto, vi que lá dentro estava uma gravata. Que porra de gravata é essa? Não havia gravata nenhuma quando chequei o armário. "Olha a fuleiragem...", pensei. Na mesma hora, irrompeu uma voz grossa e impetuosa:
- EU ESTOU USANDO ESSE ARMÁRIO!
- Ah, tá?
- TÔ.
- Tá bom.
Não revidei. Jamais faria isso. Se aquele sujeito vociferava daquela forma quando calmo, imagina bravo... Ele deve ser do tipo que espanca gente na boate todo final de semana. Minha última briga havia sido na 6º série, contra um capenguinha da 4º, e eu me lembro de ter apanhado mais do que mala velha. Enfim, já usei roupa abarrotada tantas vezes, uma a mais não me mataria, ao contrário de um soco daquele monstrengo.

Levei minha cara de otário pra fora do vestiário e fui malhar. Chuck Norris carregava dez vezes mais peso do que eu. Às vezes parecia que queria arrancar os aparelhos do chão. Quando fazia força, entortava o rosto como se estivesse sofrendo uma mutação, como acontece naqueles filmes de alienígenas invasores de corpos. "Fiz certo!", pensei.

Concluí meus exercícios de peso pena e voltei para o vestiário. Ao abrir a porta me deparei com a cena mais temida por todos que ali freqüentam: O gordinho da bunda branca! Puta que pariu! O gordinho da bunda branca!

Além de gordo, branco e do tamanho de um tamborete de brega, o sacana tem a detestável mania de ficar zanzando pelado pelo vestiário, pra lá e pra cá, balançando aquela gelatina de creme. Só faltava o chapéu e a gravatinha de marinheiro pra ficar igualzinho ao Stay Puft, o monstro de marshmallow dos caça-fantasmas. Uma gracinha!

Fui para a área dos chuveiros, os três boxes estavam ocupados, e o Puft ainda não havia tomado banho. Este não era um dia de sorte. Eu e o gelatinoso esperávamos uma vaga quando nos assustamos com uma explosão. O gordinho quase caiu! Alguém abriu a porta do vestiário com tanta força que ela espatifou um armário que ficava atrás dela. Só podia ser ele: Chuck, o monstro do legislativo!

Agora tenho que interromper a história pra falar sobre o problema do ralo. Eu já tinha alertado a recepcionista sobre o ralo defeituoso. Havia um ralo em frente ao último boxe de banho, que estava com a tampa solta. Quando alguém arrastava qualquer coisa sobre ele, até mesmo o pé, a tampa se deslocava e o ralo ficava aberto. Uma vez, o ralo estava sem a tampa e eu acabei enfiando meu pé nele, quase me machuquei. Outro detalhe importante é que a água de banho dos três boxes passava por aquele ralo. Era só alguém ligar o chuveiro que a água fluía por ali, fluía cantarolando para as entranhas do subsolo. Falei com a funcionária umas três vezes que alguém teria problemas com aquele ralo. Felizmente, esse alguém seria Chuck, o monstro do legislativo.

Chuck tirou sua mochila do armário e dirigiu-se para a fila do banho, sua respiração era de um búfalo zangado e sua careta agora era a do Dolph Lundgren levando uma surra do Rocky Balboa. Ele arrastou um banco justamente sobre o ralo, um dos pés caprichosamente abriu a tampa. Lá estava um ralo faminto e boquiaberto. Chuck foi tirando sua toalha, sabonete e roupas da mochila, quando um cara acabou o seu banho e saiu do box. Puft dirigiu-se todo animado com sua toalhinha felpuda lavadinha pela mamãe e seu Dove para peles desprovidas de melanina, quando o monstrengo rosnou:
- EU VOU USAR ESSE BOXE!
- Ma... Ma... Mas eu estava na fi...
- ESTOU COM PRESSA!
Mentalizei fortemente: "Deixa pra lá! Deixa pra lá! Deixa pra lá!" e encarei Puft. Não queria ver aquele gordinho se estrepar na minha frente. Ele olhou pra mim e creio que, telepaticamente, entendeu o recado. Olhou amedrontado para a besta e falou baixinho: - Tudo bem, eu espero o próximo...

Foi aí que aconteceu. Quando Chuck puxava suas roupas de trabalho da mochila, com a sutileza de um tiranossauro raivoso, sua blusa caiu no chão. Ele abaixou-se grunhindo e, quando foi levantando a blusa, seu celular escorregou suavemente do bolso dela para sua úmida e insalubre sepultura: O ralo.

“PLUC!". Esse foi o som da vitória. Puft me olhou. Puft viu. Puft viu e sorriu. Há tempos não contemplava um sorriso tão pleno e brilhante. Suas bochechas pareciam dois ovos de avestruz. O moleque corou como uma manga rosa e prendeu uma gargalhada com tanta força que resolvi segurar qualquer reação, porque sabia que um mínimo estímulo de minha parte faria o balofo estourar de rir (e ser estourado pelo monstrengo).

O mais engraçado é que Chuck sequer percebeu. Seu celular ainda tinha salvação, pois o ralo, como qualquer outro ralo, era largo por alguns centímetros e possuía um orifício central, mais estreito. Acho que um celular não passaria pelo buraco menor, principalmente um celular como aquele, gigante, do tipo que deve ter GPS, acesso à internet, raio laser e eletrocardiograma. Além disso, para a sorte dele, os outros dois caras que tomavam banho haviam terminado e desligado o chuveiro. Era só tirar o aparelho do buraco e dar uma enxugadinha...

Outro boxe ficou disponível e Puft correu sorridente. Conseguiu até entrar antes de Chuck. Fechou animado a porta de vidro e ligou o chuveiro no máááximo. O gordinho estava reluzente. Deve ter sido o melhor banho da vida dele. Entrei no último boxe e botei a água pra fluir. Enfim, lá estávamos nós três despejando água no celular do Chuck.

Acho que Puft pensou o mesmo que eu. Tomou banho rapidinho e foi se trocar. Não queria estar presente quando o monstro descobrisse o que aconteceu com seu brinquedinho. Mas Chuck também acabou logo. Pra ele, banho demorado deve ser coisa de frutinha. Enquanto eu vestia minhas roupas abarrotadas, um rugido:
-PUTA QUE PARIU!
Olhei pra Puft, ele estava paralisado. O monstro iria acabar com nossa raça ali mesmo. Respirei fundo e esperei a merda acontecer. Chuck andou até o ralo e arrastou a tampa para fechá-lo. Sim. Ele fechou o ralo e não viu o celular lá dentro. Incrível!

O monstro foi o primeiro a sair do vestiário, que já estava movimentado com a entrada de outros elementos. Logo depois, Puft bateu no meu ombro, deu um sorriso sacaninha e tirou o time. Eu estava acabando de me arrumar, quando a porta do vestiário mais uma vez espatifou-se no armário. Era ele, Chuck, o monstro do legislativo, furioso como um boi de rodeio, arquejando e fuçando cada canto. Um vampiro sedento farejando um pescocinho de donzela.
- ALGUÉM ACHOU UMA MERDA DE UM CELULAR?
Silêncio...
- VOCÊS SÃO SURDOS, CARALHO?
- Nã... Nã... Não. Eu não vi.
- Nem eu.
- Eu também não.
- QUE POOOOORRRAA!!!!
Saiu batendo a porta com tanta força que uma dobradiça desmontou-se, esparramando parafusos e peças metálicas pelo chão.

Saí alguns minutos depois. Que fome! Nossa! Acho que hoje eu saio da dieta... No estacionamento, Chuck revirava o carro, procurando pelo celular. Tirou mochila, pastas, montes de papel, só faltava arrancar os bancos. Ele era uma dessas pessoas que usam o carro como almoxarifado do escritório.

Ahhh... Filé ao molho de gorgonzola. Nem acreditei. Adoro carne vermelha. Adoro gorgonzola. Enquanto saboreava minha comida, lembrei de uma frase:

“Às vezes, as pessoas que a gente menos espera são as únicas a nos estenderem a mão.".

Tentei lembrar quem escreveu isso. Shakespeare, talvez.
Ou quem sabe, Mustaine.

- Um suco de melancia, por favor!