quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Tio Zica - Parte 4

Guilherme era o cara. Ele desatava os nós.

Seu pai gostaria de registrá-lo com o nome de Wilhelm Von Hokonzellern. Mas, por questões políticas, veio a se chamar Guilherme mesmo. Além do mais, ninguém conseguiria falar “Wilhelm” direito no Brasil.

Zica o conheceu em São Paulo, bêbado em um cabaré. Isso foi logo depois que o tio atravessou uma grave crise pessoal, que culminou no que é considerado, pelos homens medianos, como um vasto conjunto de deficiências sociais, morais e comportamentais.

Guilherme é carioca, filho do velho Blitz.

O velho Blitz, diziam os camaradas, era velho de nascença. A primeira tentativa de assassinato que escapou foi a de infanticídio. Sua mãe, poucas horas após a gravidez, sufocou o velho com um travesseiro e suicidou-se em seguida, cortando os próprios pulsos com um bisturi que havia escondido sob o colchão. Apesar de ter passado minutos a fio sem respirar, o velho não morreu. Quando a enfermeira entrou no quarto, ele dormia como um bebê, sobre a barriga fria da sua mamãe.

Blitz é alemão nato. Foi membro do Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores. Veio para o Brasil em 1935, adotando Blumenau como lar temporário. O seu objetivo aqui era empreender ações políticas e paramilitares para obter o apoio de líderes, empresas e formadores de opinião, visando à formação de um partido nazista alemão.

É pacífico afirmar que o velho Blitz alcançou grande sucesso em sua empreitada: Ensinou crianças descendentes de alemães a fazer a saudação nazista antes de entrar na sala de aula, “suicidou” autoridades que buscavam emperrar os interesses do Reich, comprou dezenas de servidores públicos e torturou e matou alguns espiões americanos que estavam se infiltrando no governo  Vargas.

O velho Blitz era bem instruído. Estudara em renomadas instituições, falava diversos idiomas e era obcecado pela causa e pelos ensinamentos nazistas. Para ele, era inaceitável que um alemão contaminasse sua linhagem com uma raça inferior. Porém, em 1937, durante visita ao Rio, descobriu a perfeita combinação entre um corpo com curvas acentuadas, gingado “ixperto” e uma ótima pitada de melanina. O velho Blitz não resistiu. Gostava da fruta. Fez o seu filho, Guilherme, com uma brasileira: Ana Clara, carioca safadinha.

Apaixonado pela Ana, resolveu morar com ela em uma casa comprada pelo seu partido. O velho ficaria instalado no Rio para participar do Levante Integralista, frustrado ataque ao Palácio Guanabara, em 1938. Apesar de não entender o motivo, Blitz havia recebido a ordem, aparentemente controversa, de assassinar o Getúlio. Entrou no combate convicto para cumprir sua tarefa, sem questionamentos e sem medo, como um grande soldado. Porém, sua missão não foi bem sucedida. Levou quatro tiros durante a insurgência. Escapou.

Pouco antes de a guerra estourar, o velho voltou para a Alemanha e lutou durante quase todo o período entre 1939 e 1945. O velho era osso duro: Levou oito tiros de fuzil na França, voou pelos ares duas vezes ao pisar em minas terrestres na campanha africana, foi capturado e torturado pelos russos em Stalingrado e os camaradas afirmam que ele teria sido atropelado acidentalmente por um Panzer, quando passeava bêbado, à noite, ao redor de seu acampamento. O velho Blitz nunca admitiu recordar deste acidente.

Voltou ilegalmente para o Brasil, em 1947, reencontrando a Ana e o Guilherme, que moravam em uma encosta que viria a ser parte de uma grande favela no Rio. Ana trabalhava em uma roça, que havia no morro. Vendia, em uma feira, as hortaliças cultivadas lá. Ganhava uma miséria. Já possuía quatro filhos.

Mesmo descobrindo que a Ana já tinha parido mais três moleques e que nenhum deles tinha pai registrado ou conhecido, o velho resolveu viver com ela. Inventaria um jeito de ganhar a vida. Em poucos dias, acabou inventando: Virou ajudante de pedreiro. O velho era inteligente e vigoroso. Um sobrevivente.

Sentia-se bem com a Ana. Pensou muito nela durante a guerra e ficou feliz ao encontrá-la. Chegou até mesmo a acreditar que a amava. Já havia ouvido falar sobre o amor. Seus companheiros moribundos falavam sobre o amor quando estavam prestes a sucumbir à pneumonia, em trincheiras frias e fedorentas. Os prisioneiros que fuzilou quase sempre faziam questão de declarar o amor por alguém, antes de morrer, como se suas últimas palavras tivessem o poder de viajar o mundo e agraciar o coração de suas esposas e filhos amados.

O amor sempre foi, para o velho Blitz, o último discurso de um homem. E ele queria muito possuir o direito de pronunciá-lo.

No entanto, Ana havia mergulhado no álcool, nas drogas e na amargura de uma vida repleta de escassez e solidão. Sua mente estava estilhaçada. Seu único pensamento era conseguir dinheiro para fomentar os seus vícios.

Depois da guerra, o velho Blitz nunca mais conseguiu dormir durante uma hora ininterrupta. Ouvia gritos, sentia a iminência de explosões, tinha pesadelos horríveis. Até mesmo o ruído de um grilo a quilômetros de distância era suficiente para acordá-lo. Ana não sabia, mas as noites do velho custavam a passar.

Uma certa madrugada, após apenas algumas semanas da sua chegada, o velho viu a Ana levantar-se da cama e, estranhamente, sair de casa. Olhou o relógio na parede. Três da manhã, em ponto. O velho foi até a janela da sala e contemplou, estarrecido, o mais triste cenário de devastação da eterna guerra que era a sua vida.

Ana conversava com três homens. Policiais. Um dos homens carregava um pacote. Ao ver o embrulho, Ana esticou acintosamente os braços para pegá-lo. Outro homem a segurou, de forma agressiva. Um deles abriu o envelope e exibiu o conteúdo. Dinheiro. Ela apontou para a casa. Os homens sacaram revólveres e se dirigiram para a porta da frente. O velho estava preparado. Sempre estava. Enganar a morte era seu maior talento e dizer adeus sem hesitação era seu “modus operandis”.

Na guerra, o velho Blitz aprendeu a elaborar mentalmente uma rota de fuga em qualquer lugar aonde chegasse. Era a primeira coisa que fazia ao acampar. Sabia que, sem qualquer ensaio, a sinfonia da destruição começaria a tocar. Dissonante e descompassada.

Quando as farpas de morte começassem a chover sobre as miseráveis vidas dos seus, tinha em mente exatamente o que precisava pegar e que caminho seguir. Não tentava salvar camaradas mutilados. Não carregava mais do que o essencial. Não olhava para trás. Assim ele sobreviveu.

A diferença é que, desta vez, além de uma pequena mochila que estava sempre pronta, levaria um ser humano. Um que não podia se cuidar sozinho. Não abandonaria sua linhagem. Mesmo que contaminada.

Carregou o Guilherme, abafando sua boca, e saiu furtivamente pela porta dos fundos, fechando-a cuidadosamente, em seguida.

Correu. Ouviu um dos homens gritar. Balas começaram a zunir ao seu redor. Correu. Primeiro beco à esquerda, segundo à direita, escadaria de barro, beco à esquerda, seguiu a trilha de um esgoto a céu aberto e saiu do morro. Escondeu-se em uma moita para respirar. Percebeu o pijama do Guilherme encharcado de sangue. Despiu o moleque. Procurou os furos. Ufa. Nenhum.  Abraçou o seu filho. Começou a sentir dor. Foram duas balas. Uma havia atravessado o seu ombro e a outra estava alojada entre suas costelas.

Já na avenida principal, arrombou uma caminhonete estacionada em frente a uma loja de materiais de construção, destravou o freio de mão e deixou que ela descesse um declive por alguns metros, até um local mais isolado. Colocou o Guilherme no carona, fez a ligação direta (cortesia dos conhecimentos adquiridos na guerra) e partiu.

O velho conhecia os acessos, as ruas, as rodovias. Estudar o ambiente onde estaria era prática consolidada de sua movimentada vida.

Esperto, resolveu ir morar no interior de Minas Gerais, pois a perseguição aos nazistas no Rio estava muito intensa. Instalou-se em Tumiritinga, cidadezinha humilde, no extremo leste do estado.

Em Tumiritinga, o velho vinha prosperando com a criação de porcos: “Fácil criarrrr porrrrcos neste porrrcaria de país!”. Vivia dizendo ironicamente ao Guilherme, com seu português precário.

Além de ter como passatempo ensinar coisas nazistas para o seu filho, o velho Blitz também mantinha um tímido convívio social, apenas com Tunico, coroa mineirinho que abatia e revendia a maior parte dos porcos do velho em seu açougue (“Açougue do Tunico”). O velho levava seus porcos na sexta-feira à tarde, e, depois de fechado o negócio, ia tomar pinga e jogar sinuca com o Tunico no bar do Tição, que ficava em frente ao açougue.

Na verdade, o velho Blitz estava interessado na Analice, filha do açougueiro. Analice era uma jovem de dezoito anos, cheia de sonhos, safadinha. Ela trabalhava no açougue do pai e, antes de conhecer o velho, não havia sequer beijado na boca. Tunico não deixava nem mesmo ela sair de casa sozinha: “Minha filha vai pá capitá ixtudar! Vai casá com um homi ixtruído, ixtudado. Num tem homi bão pá minha filha nessa terra aqui!”

Analice estava apaixonada pelo velho Blitz, o qual ainda era jovem, grandão, loirão e bonitão.

Tição, o dono do bar, era nascido na Bahia e não amava o velho Blitz: “Vixe! Lá vem aquele italiano de merda! Inda meto a mão na cara desse safado!”

Tunico até que simpatizava com o velho: “Ele num é italiano não, home. É das Eoropa. Ele me vende os pôrco barato. Ele gosta de nóis!”

Tição, na verdade, odiava o velho: “Oxente?! Ouvi ele te dizê que nordestino é tudo cabeça de coco e que os preto tinha é que queimá na fuguêra!”

O Tunico gostava mesmo do velho: “Dêêêxe de bobage, homi. É de brincadêra. O galego é um cabra bão!”

Mas o Tição queria arrumar uma encrenca: “Fique aí puxando o saco desse branquelo! Ele tá mermo é de olho na sua minina. Já vi duas vez ele aparecê aí no seu açôgue quando você num tá!”

Tunico agora queria o velho morto: “E É? AGORA QUE VOCÊ AVISA? VOU ARMAR UMA ARAPUCA PÁ ESSE MISERÁVE!”

Tarde demais. O velho Blitz já havia deitado e rolado – literalmente - com a garotinha. O velho era eficiente. Gostava da fruta.

Na manhã da segunda-feira da semana seguinte, Tunico saiu, como sempre fazia, fingindo que iria comprar gado em Linha do Vale, vilarejo próximo. Após algumas léguas na estrada, parou sua velha caminhonete e voltou de carona, por uma trilha escondida, no cavalo do Tição, que o esperava com uma espingarda a tiracolo:

- Tunico! Tu mira bem na caixa dos peito do safado!
- XÁ CUMIGO! SE AQUELE MISERÁVE TIVER BULINANO MINHA MININA, EU VÔ ARRANCÁ AS TRIPA DELE E DÁ PROS PÔRCO CUMÊ!

Chegaram sorrateiros pela porta do fundos. Analice ouviu os passos dos dois e falou baixinho pro velho:

- Corre, Blitz! Vem gente aí...

O velho vestiu às pressas sua camisa e correu, ainda abotoando as calças. Correu apenas porque sabia que era o combinado. O velho Blitz não sentiu medo. Como o perigo da aproximação era sempre pela entrada da frente, o velho correu pelos fundos. Ao abrir a porta, deu de cara com o Tunico e o Tição:

- Tá veno, Tunico? Eu te disse que esse fiduma égua tava aprontando com sua minina!
- EU TE MATO, MISERÁVI!!!

O velho Blitz abriu os braços, estufou o peito (as calças caíram) e falou convicto:

- Atirrrra, caipira! Atirrrra e mata! Ou eu mata você e cabeça de coco torrrrado!

Tunico tremia e soluçava. Os olhos sibilavam em lágrimas. Nunca havia matado um homem na vida. Analice chorava debaixo do balcão da máquina registradora, com as mãos nos ouvidos.

- Maaata esse discarado, Tunico! Mira nos peito. Como eu te insinei!!!
- Ê... Ê... Eu vô matá, homi! Péra que eu mato!!!

O dedo do Tunico nem chegava ao gatilho e a espingarda já estava prestes a cair, de tanto que tremia. O velho Blitz, percebendo a covardia do mineirinho, provocou:

- Dá arrrrma para cabeça de coco. Querrrr verrr se tem courage de atiraaarrrr! O prrrrobema deste espingarrrrda é que...

POW!!!

Tição havia tomado a espingarda da mão do Tunico e dado um tiro bem no peito do Blitz. O isqueiro de metal do velho estava no bolso esquerdo. O isqueiro era de zinco, muito duro, quase impenetrável.

O tiro atingiu o peito da direita.

O velho Blitz caiu de costas, dentro do estabelecimento. A bala atravessou e quebrou a janela da frente do açougue. Analice desmaiou. Tunico e Tição se aproximavam do corpo, curiosos e amedrontados, quando, de repente, o velho se levantou, resmungando:

- O prrrrobema deste espingarrrrda é que dá só um tirrrro e tem que recarrregarrr!

Tição livrou-se da arma, berrou “VIXE MARIA!!!!” e partiu em disparada. Tunico já estava a uns cem metros de distância. O velho Blitz foi atrás, mas se embaraçou nas calças que estavam enganchadas nos seus pés e desabou no chão. Resolveu desistir da perseguição:

- Eu vai emborrrra desta lugarrrr. Até a guerrrra é melhorrr do que este terrrra infame.

O Velho saiu andando na direção da sua casa, deixando um rastro de sangue pelo caminho. Não sentia dor. Não sentia tontura, por conta do sangue que perdia. Mas, pela primeira vez, sentiu vontade de morrer. Depois de ter escapado de tantas pessoas que tentaram tirar sua vida, durante toda ela, estava convencido de que apenas ele mesmo poderia fazê-lo. [continua]

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Tio Zica - Parte 3

- ...aí eu peguei um peixe que era deste tamanho aqui!

- Sério, Tico?

- Sério, tia Zuzu! Pergunta ao tio Zica. Era bem grande mesmo. Maior do que a Chun-li. O tio Guilherme disse que nem sabia que tinha peixe daquele tamanho lá na lagoa dele...

- Mas você conseguiu tirar ele da água sozinho?

- Siiiim. O tio Zica me ensinou a deixar o peixe cansado. Você sabia que o peixe fica cansado também? É que nem os cachorros! Quando eu brinco com a Chun-li, ela fica tão cansada que deita no... Peraí... Meu telefone... Oi, mãe! .... Também amo você...Que presente, mãe? ...O tio Zica ainda não acordou... Não sei... Peraí... Tia Zuzu, que horas o tio Zica levanta?

- A Tica sabe que ele não sai da cama antes das nove, porque acordar cedo é coisa pra otário.

- Mãe, tio Zica só... Tá bom... Tia Zuzu, ela quer falar com o tio Zica agora...

- Vai lá chamar! Às vezes ele acorda e fica na cama lendo.

- Peraí mãe... TIO ZICA! POSSO ENTRAR? TIO ZICA!!! MINHA MÃE QUER FALAR...

- En... En... Entra, Tico!

- Toma! Minha mãe!

- Fala, Tiquin...

- VOCÊ já deu os presentes pro Tiago?

- Calma, Tica. Quando eu sair da cama vou dar. Comprei um negócio que ele vai...

- ZICA, PRESTE ATENÇÃO! A caixa maior tem um X-Box que eu comprei pra ele. Mas minha colega, que trouxe dos Estados Unidos, me alertou aqui que filho dela danificou o aparelho quando foi ligar pela primeira vez, pois a voltagem daí é diferente e...

- TICA, que negócio é esse de caixa, de X-Box, de Estados Unidos?

- Tou falando dos nossos presentes! O meu e o do Murilo!

- Seu presente? Presente do goiaba do seu marido? Não sei nada sobre este assunto...

- O MOTORISTA DO MURILO DEVE TER DEIXADO AÍ ONTEM! É QUE A GENTE TAVA LÁ EM CALDAS. ESTARÍAMOS DE FOLGA COM O TICO LÁ HOJE SE NÃO TIVESSE SURGIDO ESSA MALDITA VIAGEM DE ÚLTIMA HORA...

- Tiquinha. Eu não tô entendendo nada. Pare de gritar, respire calmamente e explique direito isso aí.

- Tááááá bom... Após dééééécadas de trabalho, conseguimos tirar uma droga de folga, em uma poooooorra de segunda-feira, para passar o aniversááááário de nosso filho no parque aquático que ele adoooora...

- CALMA, Tiquinha....

- ... levaaaaamos os presentes, que eeeeeu comprei sozinha, para darmos hoje ao Tico. Mas uma merda de um velho fudido resolve viajar pro inferno em pleno sábado à noite e, por isso, eu tive que voltar pra casa mais cedo, pra arrumar meus panos de bunda e vir pra São Paulo, pois o Murilo tem que participar de uma reunião daqui a pouco com uns filhos da puta que vieram lá da China pra fechar um negócio escroto, e eu, como a única porra de diretora viva dos programas sociais daquela merda, vou ter que substituir a viúva velha, dando uma palestra que inventaram...

- Tiana, pelo amor de Deus....

- ...aí o Aroldinho, motorista do Murilo, deixou a gente em casa ontem à tarde e, acredito eu, teria ido aí deixar os presentes do Tiago, pra não estragar a surpre...

- TÁ BOM! Tá bom! Tá bom! Só um instante... Tico, chama ali a Zuleide... Ontem eu não estava em casa mas a Zu... Zuzu, você recebeu alguma encomenda ontem?

- Não, seu Zica. E eu passei o dia aqui.

- Hummmm... Tica, não recebemos nada.

- MAS NÃO É POSSÍV... MURILO!!! MURILO!!! O ZICA TÁ DIZENDO QUE NÃO RECEBEU OS PRESENTES!!! ..... COMO ASSIM "QUE PRESENTES"?... VOCÊ SABIA QUE TEM UM FILHO? E QUE HOJE É ANIVERSÁRIO DELE? ...LEMBROU?...TÁ LEMBRANDO?... NÃO PODE SER!... MAS EU TE PERGUNTEI NO CARRO! VOCÊ RESPONDEU "SIM, PEGUEI"... ONDE? NO HOTEL? QUE DROOOGA...

- Tiquinha, tou desligando aqui... Tico, já tomou café?

- Não, tio Zica! A tia Zuzu tá fazendo daquelas panquecas que eu adoro e aquele milk-shake de Ovomaltine, que é melhor do que o do Bob's.

- Fala pra ela fazer pra mim também. Já que me acordaram de madruga...

- SEU ZICA, TELEFONE! É A DONA TIANA!

- Isso deve ser um pesadelo... TOU INDO!

...por isso nossa reportagem virou a noite no hospital. Durante a madrugada, não havia médicos das especialidades de ortopedia e cirurgia, por isso, muita gente que chegava na emergência teve que procurar atendimento em outras unidades. A população está revoltada com a situação da saúde. A redação tentou entrar em contato com a diretora mas...

- Fala Tiquinh...

- ZICA, você vai passar o dia lá no sítio do Guilherme, não é?

- Sim, vamos passar o dia pescando, à noite vamos pra casa do Bina jogar Paintball e ainda temos que ver o filme do Senhor dos...

- ESCUTE! O Aroldinho, motorista do Murilo, está indo lá em Caldas pegar os presentes do Tico pra levar lá no Guilherme. Ele vai telefonar pro celular do Tico quando estiver perto...

- TICA, lá nem pega celular...

- AH, Droga! Havia esquecido disso... Tudo bem! Se ele chegar lá e vocês já tiverem ido embora, peço pra ele deixar aí em sua casa mesmo. Lá seria mais perto pra ele... Que chato! Hoje é o primeiro dia de férias do rapaz! O coitado tá lá na casa da família em Luziânia e é longe pra...

...falamos agora com o secretário de transportes, que responderá aos questionamentos sobre a situação crítica em que se encontra o transporte público no DF:
- Senhor secretário, quais são as medidas que a gestão do atual governo buscará adotar para melhorar a vida do cidadão que utiliza o transporte público na nossa capital?
- Vamos adotar um conjunto de ações integradas e complementares que garantam...


- HAHAHAHA! Gostei desta!

- ZICA! Você está ouvindo o que eu estou falando?

- Claro! Você está adotando um conjunto de ações integradas e complementares que garantam que o presente do seu filho seja entregue de forma tempestiva...

- ZICA! Se eu estivesse aí agora, juro que arrancaria sua cabe...

- TIQUINHA... Eu já entendi tudo. Agora tenho que desligar, pois tenho muito o que fazer hoje. Beijo... TICOOO! Vá pegar o presente que comprei pra você! Tá lá no meu quarto, do lado da cama!

- ÊBAAAAAA! Tou indo lá pegar!

...continua a greve dos professores. Estudantes das escolas públicas farão manifestação hoje, na Esplanada dos Ministérios, para protestar contra a precariedade da encontra a educação, o que tira a oportunidade de....

- Seu Zica, o café tá na mesa...

- TIO ZICA, QUE LEGAAAAAL!

- Hehehe! Gostou?

- ADOREI! OLHA COMO FICOU MANEIRO!

- Cadê a arma, Tico? Você não viu? Pega lá! Deve estar embaixo da cama...

- CARAMBA! TEM ARMA TAMBÉM? OBAAAA! VOU LÁ PEGAR....

- Seu Zica, aquela fantasia é de quê?

- Aquilo é uma armadura de Paintball! Esse garotinho ficou louco quando vimos isto em uma vitrine há um tempo atrás!

...Novo Hyunday Azera, o carro de um bilhão de dólares. Um sedã de luxo inesquecível. Tecnologia, desempenho e luxo muito além do que existe no mercado. O lançamento mais grandioso...

- TIO ZICA! OLHA SÓ QUE LEGAL ESSA METRANCA! NÓS VAMOS JOGAR PAINTBALL HOJE, NÉ?

- Vamos sim, Tiquinho!

...e agora as oportunidades pra você que está à procura de emprego: Auxiliar de pedreiro, primeiro grau completo, duas vagas em Taguatinga, salário de 655 reais. Cozinheiro, primeiro grau completo, uma vaga no Plano Piloto, salário de 780 reais mais vale transporte...


- Zuzu, Por que você assiste a esta porra, hein?

- Seu Zica, a dona Tiana já falou pra o senhor não ficar falando palavrões na frente do Tico. O senhor sabe que ele repete lá na casa dele o que escuta aqui...

- Tá bom, mas dá pra gente tomar café sem televisão?

- Seu Zica, eu quero ver as notícias...

- Mas todo dia são as mesmas notíc... Olha aí agora que animador:

Agora, pra você que está saindo de casa, vamos ao nosso Radar: Ônibus quebrado deixa o trânsito lento na Estrada Parque...

- Hehehe! Esta é a melhor parte: Todo dia este jornal informa ao otário que sai de casa que, além de ele ter que desperdiçar o dia na frente de um computador, tem que enfrentar horas em um engarrafamento pra fazer isso... Sem TV, Zuzu! Clique!

- Tio Zica! Com esta arma eu vou ganhar todas as partidas!

- Mas você já ganha todas, Tico!

- Mas agora eu vou ganhar mais! Tio Zica, vamos logo pescar pra poder a gente ir depois pro Paintball.

- Mas Tico, o Paintball é só à noite!

- Mas a noite só vem depois que a gente acabar de pescar. Então vamo pescar logo!

- Relaxe aí, Tico! Olha lá: Tá tudo engarrafado... Vamo tomar café, jogar uma partidinha de videogame e depois a gente sai. Vou ganhar uma de você!

- Tá bom, tio Zi... PORRA! A arma disparou sem querer!

- Tá vendo, seu Zica?

[continua]

quinta-feira, 29 de março de 2012

Tio Zica - Parte 2

- Tio Zica, que dia nós vamos jogar paintball?

- Amanhã à noite.

- Tio Zica, você sabia que eu tenho uma namorada?

- Sério? E você já namora? Qual é o nome da garota?

- Tâmara. Mas ela ainda não sabe não. Eu vou falar pra ela no dia dos namorados. Falei com minha mãe que quero comprar um anel bem bonito pra dar de presente e... GOL!!!!

- Caraca! Você ganhou novo! Não entendo como é que você nem presta atenção no jogo e ainda joga tão bem!

- Tio Zica, nós vamos mesmo jogar paintball amanhã?

- Sim.

- Na casa do Bina, né?

- É.

- Eu falei com meu pai pra fazer um campo de paintball como o que tem na casa do Bina, mas ele disse que o espaço lá de casa é muito pequeno. O Bina disse que o espaço lá em casa dá pra fazer e disse também que o pai dele falou que meu pai não faz porque é um escroto e não liga pra... GOL!!!

- Rapaz!!! Como é que você fez este, hein? Do meio do campo...

- Tio Zica, eu pedi pra minha mãe me dar um cachorro de aniversário. Queria um cachorro bem grande, maior que a Chun-Li. Sabe o cachorro daquele filme de super herói que a gente viu na semana passada? Eu quero um igual àquele. O problema é minha mãe. Ela disse que cachorro tem ácaro, que são uns bichos "micocróspicos" que fazem mal. A minha namorada tem um cachorro e me disse que... GOL!!!

- Tico. Vamo tentar uma coisa nova? Vamo jogar uma partida caladinhos?

- Hummmm... Tá bom, Tio Zica. Mas não pode falar nada mesmo? Nem quando fizer um gol?

- Tá certo. Só pode falar “gol”, tá bom?

- Então tá!

- .....

- .....

- .....

- GOL!

- ....

- GOL!

- GOL!

- Caraca! De novo!!!

- Tio Zica, você falou...

- Tá bom, desculpa...

- GOL!

- GOL!

- Perdi de novo... Tico, você não estuda não? Fica só jogando esse treco em casa?

- Não, Tio Zica. Quase não dá tempo. Só posso jogar no final de semana porque minha mãe não... Olha! O telefone!

- Vou atender...

- Tio Zica, eu posso comer, né?

- Come aí um quilo de chocolate, já que ganhou umas dez partidas... Alô!

- Zica, é a Pati. Seguinte: Eu e a Lulu estamos indo no Pontão daqui a pouco. Hoje é aniversário de uma colega da academia. Vamos?

- Pati, hoje não posso sair. Estou aqui com o...

- NÃO ACREDITO que você vai deixar de sair comigo pra ficar em casa mexendo naquela mulher dos peitos caídos!!!

A mulher dos peitos caídos, citada pela Pati, é um quadro que o Zica vem pintando há uns 4 meses. É, para ele, uma das melhores pinturas que já fez e aquela que vem te trazendo mais ansiedade. Às vezes, acorda com grandes idéias para os próximos traços. Outras vezes, acredita com toda convicção do mundo de que sua obra já está pronta e que qualquer pingo de tinta adicional irá destruí-la.

Neste momento, Zica lembrou dos motivos pelos quais entrou em colapso algum tempo atrás: Andou com as pessoas erradas, freqüentou os lugares errados, viveu uma rotina que não escolheu direito, deixou a vida o arrastar.

Lidar com a ignorância e a leviandade das pessoas durante tantos anos quase o levou à morte. É plenamente aceitável que alguém se realize com carros novos, com jantares em restaurantes chiques, com televisores 3D ou com viagens para Paris, para Londres, para Nova York ou para a puta que o pariu. Mas espere que aceitem que uma maldita pintura de uma mulher do peito caído seja fonte de satisfação para um indivíduo...

É fácil cuspir na cova daqueles que não encontraram o que os completasse neste mundo. É fácil dizer "Oh! Mas ele tinha tudo do bom e do melhor e mesmo assim se destruiu!", "Oh! Mas era rico, famoso, dormia com quem quisesse e ainda assim se envolveu com drogas!", "Oh, mas ela tinha uma família maravilhosa e abandonou tudo pra viver uma vida solitária!". Difícil mesmo é ter que pertencer ao público-alvo deste apedrejamento. É não achar graça nenhuma no que os que te rodeiam consideram maravilhoso. É presenciar todos dizendo que você tem tudo quando, na verdade, você não tem nada.

Diante de tudo isso e por uma questão real de sobrevivência, Zica, convencido de que não conseguiria aceitar o mundo como ele é, necessitou adotar uma postura completamente diferente:

O mundo que me aceite como eu sou!

- Pati, é isso mesmo! Pra mim é muito mais proveitoso passar um mês pensando naquela mulher dos peitos caídos do que ter que aturar sua ladainha infame durante horas só pra apalpar os seus peitinhos consistentes. Um beijo!

- Tio Zica, a Chun-li tá comendo uma caixa de chocolate inteira, olha lá!

- Caraca, Tico! Você não viu ela pegando a caixa em cima da mesa? Essa cachorra vai me dar trabalho amanhã... CHUN-LI!!!! VAZA!!!!

- Tio Zica, a gente ainda vai jogar?

- Claro, eu só durmo depois de ganhar uma de você!

- Oba! Vamo jogar outro jogo agora! O de corrida!

- Pode botar, trombadinha! Esse eu sei que eu ganho! Já tenho mais de 10 anos de carteira e você nem alcança o acelera...

- Tio Zica, o telefone tá tocando!

- Deixa tocar. Estamos ocupados...

- Tio Zica, amanhã a gente vai jogar Paintball?

- Tico, eu já falei que sim duas vezes. Porquê você pergunta toda hora a mesma coisa?

- Desculpa, Tio Zica. É que minha mãe me ensinou a fazer isso com meu pai. Ela disse que se eu não ficar toda hora perguntando, ele não faz o que me prometeu.

- E funciona?

- Nunca funciona! Uma vez ele disse que ia me buscar na escola pra gente jogar boliche, eu perguntei várias vezes e ele me disse que ia, mesmo assim ele não foi. Outra vez ele disse que ia levar eu e minha mãe no Paintball mas não foi. Teve também a vez que ele disse que ia assistir os três filmes do Senhor dos Anéis comigo e não assistiu. Mas minha mãe me disse que ele tem um trabalho muito importante e que por isso...

- MAS VOCÊ não assistiu ao Senhor dos Anéis?

- Não. Meu pai disse que queria assistir comigo...

- Vamo assistir então. Essa semana eu compro o DVD.

- Lá em casa tem, Tio Zica. Minha mãe comprou. A Altina tá lá. A gente pode pegar.

- Relaxe. É melhor eu comprar outro. Tico, seu carro é melhor que o meu!!!

- Não é não, Tio Zica! O seu também é Porsche!

- Mas o seu deve ser mais novo! Olha lá! Meu carro não corre nada! Deve estar com problema na caixa de marcha...

- Êba!!! Cheguei em primeiro! Vou comer mais chocolate...

- Vamo outra! Agora eu vou pegar um fusca turbinado!

- Tio Zica...

- Hum?

- Deixa pra lá...

[continua]

quinta-feira, 15 de março de 2012

Tio Zica - Parte 1

- Tio Zica, podemos ir lá na casa do Bina hoje?

- Não vai dar, Tico. Hoje é domingo e já é tarde. Vamos pra casa jogar Playstation.

- De boa! Você comprou chocolate?

- Ta aí no banco de trás. Mas você vai ter que ganhar de mim pra comer, seu trombadinha!

- Tio Zica, a gente vai pescar?

- Claro! Amanhã.

- E a tia Ivana vai?

- Não, Tico. Amanhã é segunda-feira. Os trouxas trabalham.

- Ah é! Tio Zica, quase que meu pai não deixava eu vir. Eu ouvi ele dizendo pra minha mãe que você é “mau influência”. Eu perguntei pra minha mãe o que é isso e ela disse que eu não devia dar ouvidos ao meu pai. Ela também disse que não era pra eu te falar que meu pai disse que você é “mau influência”...

- Não é “mau influência”, Tico. É “má influência”! Seu pai quis dizer que você não devia andar comigo, pois ele acha que eu só te ensinaria coisas ruins. Seu pai acha que eu sou do mal, entendeu?

- Ele também disse que você é maconheiro e que cheira farinha. Aí minha mãe disse que ele não devia falar de você, pois ele é um bêbado. Minha mãe também disse que por isso ele nem comparece mais. Foi a maior briga.

- Quando foi essa confusão, Tico?

- Agora mesmo. Quando eu saí, eles ainda tavam brigando. Eles brigam todo dia.

- Tico, seu celular!

- É minha mãe... Oi mãe! Sim. Tá certo. Eu trouxe o... Tudo bem, mãe. Vou passar pra ele. Tio Zica, ela quer falar com você.

- Diga, Titica!

Ainda era bom ouvir a voz de Tiana. Por ter tão poucos momentos de convívio na fase adulta, sempre que falava com ela, Zica se lembrava da infância e adolescência deles. Tica e Zica eram uma dupla barra pesada. Aprontavam horrores...

- Zica, pelo amor de Deus, tenha cuidado com este menino! Lembre de dar as vitaminas no horário e não deixe que ele tome chuva, pois estava resfriado há alguns dias. Eu coloquei na mochila dele o... O QUE É, MURILO? SUA MALA TÁ NA SALA! ONDE VOCÊ DEIXOU!

Quando Tiana falou sobre as vitaminas, Zica lembrou-se do dia do aniversário da vovó Mandica, na casa dela. Ele e Tica atiraram pela janela do quarto todos os remédios que ficavam guardados no guarda-roupa da velha, tentando acertar um gato que andava em um terreno baldio, ao lado do prédio.

- ...não deixe ele ficar brincando com aqueles seus cachorros, pois eu li uma reportagem na internet... Só um instante... O TÁXI CHEGOU HÁ HORAS!!! VOCÊ AINDA VAI VIAJAR, MEU BEM? QUE DROGA!

Outra lembrança que fazia o Zica rir era a do dia em que eles grudaram vários chicletes mascados no cabelo da Alice, priminha vaidosa que vivia se penteando e se pintando, com aquelas maquiagens para criança, que eram vendidas na época. Zica nunca mais havia visto aquele tipo de brinquedo... Talvez ele não existisse mais... Quem sabe? Tanta coisa andou mudando em todos estes anos...

- ...cuidado quando for pescar, Zica. Não deixe o Tiago sozinho em momento algum. Leve água mineral e suco, pois ele NÃO bebe cerveja. Como você é a única pessoa deste planeta que não possui um aparelho celular, mantenha o aparelho do Tico carregado. Não se esqueça disso. Eu enviei todas as orientações via email e...

Zica, que já nem prestava mais atenção ao que Tiana falava, começou a mexer no som do carro, navegando nas pastas do seu pendrive em busca de uma música.

-...além disso, não deixe o Tiago ficar assistindo TV a cabo sozinho até tarde, pois em alguns canais que são “inofensivos” durante o dia, começam a passar filmes pornô. Outro dia ele estava assistindo ao Multishow e...

Marco se n'è andato e non ritorna più/ E il treno delle 7:30 senza lui/ È un cuore di metallo senza l'anima/ Nel freddo del mattino grigio di città

-...ZICA!!! DEIXE DE BRINCADEIRA E ABAIXE ESTE SOM...

- Meu fofo... Estou escrevendo mais esta cartinha para te dizer o quanto meu coração fica apertado sem você...

- HAHAHA! SEU IDIOTA!

- ...e que eu penso o tempo inteiro em te encontrar novamente, te tocar, te sentir...

Chissà se tu mi penserai/Se con i tuoi non parli mai/Se ti nascondi come me/Sfuggi gli sguardi e te ne stai

- EU DEVO SER LOUCA MESMO PRA DEIXAR MEU FILHO COM VOCÊ!

Mas agora Tiana falava sorrindo. Prendendo uma gargalhada. Ela se divertia muito com o irmão. Ele sabia que essa chacota sobre a adolescência dela era vencedora.

Quando ela se apaixonou pela primeira vez foi, segundo o Zica, insuportável. Passava o dia inteiro ouvindo Laura Pausini e escolhendo papéis de carta para escrever aqueles versinhos ingênuos e repetitivos para um pirralho da escola, seu grande amor. Antes de entregar os versos ao rapaz, ela passava para o Zica ler e dizer o que achava deles. O Zica, que é alguns anos mais velho que Tiana, achava aqueles bilhetinhos extremamente enfadonhos, mas fazia questão de lê-los. Era um irmão atencioso e companheiro.

Rinchiuso in camera e non vuoi mangiare/Stringi forte a te il cuscino/Piangi e non lo sai quanto altro male ti fará...

- Titica, eu te amo e vou dar ao seu filho o melhor aniversário que ele teve na vida, mas não posso mais conversar agora. Tá meio barulhento aqui. Vou ter que desligar!!!

- ABAIXE ESTE SOM, SEU...

- tu tu tu tu tu tu tu...

Tiana ria muito. Seu rosto já estava trêmulo e dolorido. Foi pegar sua bolsa na cozinha cambaleando de tanto gargalhar. Lembrava daquelas coisas da adolescência com vergonha de si mesma. Achou engraçado que o Zica não se lembrava de um detalhe tão relevante para sua chacota, que era o fato de que ela borrifava perfume nos bilhetes, e ele ainda ajudava a escolher qual o cheiro que melhor "combinava" com o texto.

Seus olhos se encheram de lágrimas e, ainda rindo, sentou-se no chão frio da cozinha escura e começou a chorar. As gargalhadas foram virando soluços sufocados de tristeza, enquanto ela encostava as costas na geladeira e apoiava a cabeça sobre as pernas dobradas.

Chorava como uma adolescente desiludida, tentando fingir não saber o motivo para estar se sentindo tão desesperada. Lá fora, seu marido a esperava impacientemente, pedindo para o motorista do taxi continuar buzinando.

...la solitudine


[continua]

quarta-feira, 7 de março de 2012

Cara de Kombi

Uma das brincadeiras infames preferidas dos que jogavam dominó era ficar inventando supostos nomes para matérias universitárias que abordassem o tema. Dentre os dignos de lembrança, estavam "Introdução à lógica dominolística", "Dominó I e II", "Equações diferenciais aplicadas ao dominó" e "Teoria dos jogos de dominó". Até que, na época, essa brincadeira parecia engraçada, mas, pensando nisso hoje, não consigo ver graça nenhuma.

Dominó era a atividade mais popular da universidade. Era talvez a mais democrática, pois muitas vezes era o único motivo capaz de reunir diferentes grupos ideológicos, diferentes turmas e sexos, além de possuir a notável "virtude" de levar professores e aqueles alunos mais estudiosos, dedicados e circunspectos aos bares mais cavernosos das redondezas, como aquele onde estávamos naquela noite.

O "Faltando um Pedaço" era um boteco de pior qualidade que ficava em frente à faculdade de geologia, sendo apelidado pelos freqüentadores de "Caindo aos pedaços", por causa de suas instalações inadequadas e outros aspectos precários de seu funcionamento. Porém, quando se é estudante quebrado, a cerveja barata e a possibilidade de pendurar a conta são os fatores determinantes para a escolha de onde freqüentar. No Caindo, a Schincariol custava um real e uma porção de chuleta, com "consistência" suficiente para que 3 pessoas passassem a noite "mascando", custava uns quatro contos. Em resumo, qualquer esfarrapado faria uma farra lá.

Aquela não era uma noite muito agradável, pois além de ser uma segunda-feira chuvosa, era véspera da prova de Engenharia de Software (matéria ministrada pelo professor Mun-Ha) e o bar estava cheio dos chapadões de geologia, que chegavam às duas da tarde e, àquela altura, já estavam completamente alucinados, berrando frases aleatórias e batucando canções irreconhecíveis nas mesas e cadeiras enferrujadas. Ser estudante é isso: Ser livre.

O teto do bar, feito de “Eternit”, tinha muitas goteiras e Tonho da Lua, o dono, era convicto em acreditar que era mais prático e barato espalhar baldes plásticos pelo chão do que pagar uma bagatela pra qualquer pobre alma tapar os furos com durepox ou qualquer outra solução mais duradoura. De vez em quando, um geobêbado acabava tropeçando em um dos baldes, fazendo aquela onda de água de chuva que encharcava os pés de todos. Quando isso acontecia, os demais geobêbados gritavam "TSUNAMI!!!" e se afogavam em gargalhadas. Era um cenário bastante desagradável. Ser estudante é isso: Ser livre.

Mas o pior de ficar no Caindo em noite de chuva era suportar o calor e a fumaça de cigarro, pois dentre as brilhantes idéias que o Tonho teve para seu negócio, uma delas foi a de cobrir as laterais do bar (que eram vazadas) com lona de caminhão. "É pá num entrá essas fumaça dos carro, que faiz muito mal pá respiração", dizia com ar de professor.

Outro problema sério do Caindo era sua localização, bem em frente a uma rua muito movimentada. Da entrada do bar, apenas dois passos eram suficientes para um atropelamento, e foram tantos nos últimos meses que a prefeitura acabou colocando um quebra-molas bem em frente à bodega. Os motoristas da cidade já eram cientes do perigo daquela rua. Passavam buzinando e dando sinais de luz pra alertar os geobêbados que, de tempos em tempos, atravessavam a pista cambaleando pra fumar maconha na faculdade, pois Tonho não permitia o consumo de drogas ilícitas no seu estabelecimento: "Meu bar é um lugá de respeito! Vão fumá sua porra pá lá!", berrava quando sentia algum odor suspeito. Ser estudante é isso.

Jogávamos eu e Cara de Kombi contra 2 professores: Marinalva e Sabidão. Este não sabia porra nenhuma de dominó (e nem de qualquer outra porra), mas Marinalva era foda. Era aquele tipo de pessoa endiabrada que, na segunda rodada, já sabia o que cada um tinha na mão e conseguia prever e conduzir todo o resto do jogo (nunca consegui entender este talento). Resumindo: Eu sabia que perderíamos todas as partidas e que Cara de Kombi colocaria a culpa em mim, pois, apesar de ele também ser um péssimo jogador, possuía um orgulho incomparável.

Pra piorar a situação, Cara de Kombi estava a fim de Liliane, que estava lá no bar, no meio dos geobêbados. Ele nem prestava atenção no jogo, contemplando sua paixão. Liliane era uma linda garotinha do curso de administração, a única patricinha daquela faculdade que freqüentava uma espelunca daquela categoria. Fazia isso por causa das suas duas geoamigas de infância: Kika e Gina. As três eram bem bonitas, desejadas e nascidas em berços de ouro. Elas já estavam bêbadas. Também curtiam uma fumacinha, pois de vez em quando atravessavam a rua pra dar um tapa na pantera...

Lili até queria fazer vestibular pra geologia, pra continuar seu convívio com suas parceiras, as quais escolheram o curso por conta de outros amigos que lá estudavam e diziam que era a faculdade da putaria (no bom sentido, claro). Porém, seus pais a proibiram de fazer isso, pois sabiam que aquelas duas porras-loucas colocariam sua inocente filha no mau caminho. Lili foi pra outro curso, mas continuou no mau caminho. Existem várias rotas para o inferno.

Quando auferimos nossa terceira derrota consecutiva, Cara de Kombi reclamou:
- Porra, Marcão! Joga direito!!!

- Meu amigo, você viu a merda que você acabou de fazer aí? Matou sua própria bucha...

- Matei nada, rapaz! Você é que fez bobagem...

- Marinalva interrompeu: - Matou mesmo, Sérgio. Você é que não percebeu, pois parece um pouco desconcentrado...

- Ah Nalvinha! É que eu fico desanimado jogando com Marcão. O cara é muito ruim! Não faz uma jogada que...

Neste momento, Sabidão levantou da mesa e correu na direção do banheiro, para vomitar, provavelmente. Nem beber aquele sacana sabia. Apenas 3 copos de cerveja eram o suficiente pra mandá-lo para a UTI. Por isso, ele quase nunca bebia, mas, de vez em quando, resolvia tentar acompanhar o ritmo de outros professores, talvez por uma questão de auto-afirmação. Infelizmente, ele tentou acompanhar a Nalvinha, que era uma bebedora profissional e professora de bioquímica. Com freqüência, ela tirava algum comprimido da bolsa e engolia. Ninguém nunca teve coragem de perguntar por que ela fazia isso e nem que tipo de "medicamento" era aquele. Existem relatos de que Nalvinha teria ficado no Caindo até 4 da manhã e que teria dado aula das 7:30h até 20h, em seguida à bebedeira, sem apresentar qualquer sinal de cansaço (nem mesmo um bocejo).

Quando Sabidão voltou do banheiro, pálido, Nalvinha falou:

- Pessoal, vou embora. Já é mais de meia noite e ainda preciso terminar um artigo pra passar pro departamento pela manhã.

- E Sabidão:

- E-E-Eu também já vou. N-N-Não me sinto mui-mui-muito bem...

Todo mundo tem um amor na vida e por ele tudo é capaz/Eu tenho uma paixão que é proibida só porque eu sou pobre demais

Eu também queria ir embora, mas Cara de Kombi insistiu pra que eu ficasse:
- Marcão, vamo dar um tempo aqui. Tou sentindo que hoje eu pego aquela tal de Lili. A mulé não pára de olhar pra cá.

- Tem certeza? Não havia percebido não...

- Fique ligado que você vai ver.

- Tudo bem, Sérgio. Mas só vou tomar mais uma.

Fico muito triste ao lembrar do Cara de Kombi. Principalmente por conta do evento trágico que veio a ocorrer em sua vida, alguns anos após aquela noite. Cara de Kombi era uma pessoa como outra qualquer. Apenas mais uma pobre alma em busca da felicidade em um mundinho severo, onde estamos sempre aquém das expectativas, onde somos convencidos que devemos buscar arduamente atingir objetivos que, na verdade, não fazem diferença alguma pra nós, onde somos ou feios, ou gordos, ou desejosos por ter o que não temos (e nem precisamos ter).

Cara de Kombi era feio mesmo. Seus olhos eram pequenos e bem afastados, sua testa era protuberante e sua boca enorme, de orelha a orelha (sem muito exagero). Ele era realmente muito parecido com uma Kombi. Também era pobre e morava longe. Como eu, era humilhado diariamente ao ter que encarar ônibus velhos, cheios, sujos e que viviam quebrando.

Mas ele era um cara legal. Amigo dedicado, inteligente e divertido. Sempre sorridente, tinha um bom astral e boas piadas. O problema do Kombi é que ele seguia o caminho oposto do de Dust: Fingia ter valores mais superficiais dos que realmente tinha, tratava suas virtudes com desdém e concentrava suas energias no ódio e aversão aos seus defeitos. Vivia tentando ser outra pessoa. Pior do que ele mesmo.

A garota que eu adoro/por quem tanto choro não pode me ver/Nunca soube o que é tristeza/ Vive na riqueza sem poder viver

- Marcão, vamo colar na mulherada lá.

- Sérgio, aquela não é nossa galera não.

- Deixe comigo. Vou lá falar com elas.

- Boa sorte. Vou ficar por aqui mesmo...

E foi. Cara de Kombi era destemido mesmo. Procurava demonstrar que não se importava com suas evidentes limitações. Aparentemente, foi bem recebido e até mesmo convidado a se sentar. Começou a buscar entrosamento, mostrou-se à vontade e confiante, contou alguma gracinha e fez a mulherada sorrir. Estava seguindo o manual.

Foi aí que chegou o Pezinho, bêbado, jogando água no brinquedo...

- Grande Marcão!!! Altas horas hoje, hein meu velho? Não vai fazer a prova amanhã não?

- Vou sim e você?

- Porra nenhuma, negão! Tranquei aquela bosta. Vou esperar aquele miserável morrer!

- Cadê Arlete?

- Tá em casa. Vai acordar cedo amanhã. Tava tomando uns vinhos lá com ela e resolvi passar aqui pra tomar a saidei... Olha quem tá ali, negão! Todo compenetrado...

- Pezinho, deixa o cara lá, velho. Ele tá...

- CARA DE KOMBI, PUTA VELHA! ESSA KOMBI É MOVIDA A ÁLCOOL ETÍLICO! HAHAHA!!!

E o resultado foi catastrófico.

[continua]

sábado, 26 de novembro de 2011

Pezinho - Final

O local escolhido para a comemoração da vitória de Dust foi o Bar do Jamelão, uma “taberna” mal acabada que ficava perto da faculdade de veterinária, ao lado de uma borracharia. Aquela era uma das noites mais felizes da vida daquela turma. Todos estavam sorridentes, falando alto e relembrando os momentos finais da queda do grande vilão da universidade. Alguns especulavam que Mum-Rá finalmente se aposentaria, renovando as esperanças de vários alunos em conseguir o diploma. Dust era abraçado por todos. Alguns, já meio embriagados, se ajoelhavam aos seus pés.

Em minha mesa, estavam Dust, Cara de Kombi e Ivana, a prima de Minduim que era conhecida nos corredores como Savana. Ivana era provavelmente a garota mais bonita de toda universidade e tinha um perfil bastante peculiar. Cursava física, jogava dominó e era muito simpática e comunicativa, além de ser extremamente inteligente. Características raras unidas em uma garota de tão exuberante beleza. O apelido atribuído a Ivana, segundo contavam, foi dado por conta da imensa aparência física que ela supostamente possui com uma atriz pornô americana, conhecida como Savana.

Ivana ficou sabendo do apelido, mas nunca esboçou qualquer preocupação quanto a isso. Ela chegou inclusive a dizer, em uma mesa de dominó, que teria assistido a um filme da Savana apenas para comprovar se o apelido era pertinente: “Parece mesmo. Mas ela tem o corpo muito mais bonito, claro!”, disse.

Outra coisa interessante sobre a Ivana é que ela parecia ser a única criatura do sexo feminino que demonstrava interesse pelo Dust. Sempre que o via, ia correndo falar com ele. Passavam horas conversando no pátio e ela ficava nitidamente maravilhada, o ouvindo falar. Ivana conversava olhando não para os olhos do interlocutor, mas para a boca. Todos achavam isso muito sexy.

No entanto, ninguém desconfiava que Ivana pudesse estar interessada no Dust. Primeiro que ela tinha um namoradinho, e segundo, que todos achavam Dust um cara detestável (até aquele dia, pelo visto). Seu comportamento era muito esquisito. Ele preferia ficar em algum canto do pátio lendo um livro do que participar das rodas de conversa. Quando estava em um grupo, praticamente não abria a boca e se mandava o mais rápido possível. Com poucas pessoas ele se dedicava a dialogar. E com Ivana, seus olhos brilhavam. Assim como Mum-Rá, Dust parecia gostar da fruta.

Quando Ivana se levantou para ir ao banheiro, Dust começou com a chatice:

- Galera, vou tomar a saideira e vou adiantar!
- Aaahhhh, Dust! Peraí! Esta é sua festa, rapaz! Você acabou de chegar!
- Ah, Marcão! Esse povo não me deixa em paz! Toda hora vem um bêbado aqui com as mesmas piadinhas! Vocês não querem pelo menos mudar de bar? Tou indo ao banheiro...

Dust era anti-social mesmo. Sempre desagradável quando a situação envolvia relacionamento interpessoal. Competindo com ele, em termos de ser "sem-noção", estava Cara de Kombi. E a disputa era acirrada:

- Marcão, vou pegar esta mulher hoje!
- Vai nada, Cara de Kombi! Ivana tem namorado!
- Não tem mais não! Minduim me disse que esta semana ela ficou solteira!
- Então tente, mas ela não parece estar dando mole pra você. Só fica de papo com o Dust!
- Que nada, Marcão! Dust fica insistindo nestes papos de teoria da relatividade, mecânica quântica e velocidade da luz! Essa ladainha aí não dá em nada!
- Mas ela parece bem interessa... Ela tá vindo aí!

Então tive, mais uma vez, a desconfortável experiência de presenciar Cara de Kombi levar um fora descomunal...

- Ivana, tá a fim de ir ao show do Asa amanhã?
- Não, Cara de Kombi. Não curto axé não.
- Mas como não curte axé? Você não é baiana não?
- Sim, mas isso nunca foi o suficiente pra me fazer gostar de axé, infelizmente.
- Você curte o quê?
- Blues e Jazz. Já cantei em alguns conjuntos. Inclusive, eu e Dust estamos pensando em formar uma banda!
- Ah! Você é cantora! E Dust achando que vai te conquistar com essas “conversinhas de cientista”...
- Na verdade, Cara de Kombi, Dust ESTÁ me conquistando com essas “conversinhas de cientista”.

E, novamente, Cara de Kombi teve sua autoestima arremessada ao abismo. Calou-se, encheu o copo de cerveja, recostou-se confortavelmente naquela cadeira desconfortável e fingiu estar tudo bem. Agora eu tinha certeza de que aquela noite acabaria mal. Quando Dust estava voltando do banheiro, meu celular tocou:

- Marcão! Onde vocês estão? Eu tô no Sergipe com Arlete. Não quer vir tomar uma cerva?
- Boa pedida! Vou falar com o pessoal aqui!

Dust e Ivana toparam. Cara de Kombi, como era de se esperar, disse que ficaria por ali mesmo. Saímos de lá e fomos para o Sergipe. Foi um encontro bastante agradável e com algumas surpresas. Pezinho não tomou uma dose de álcool e Dust bebeu até ficar falando embolado, após ter dado uns amassos na Ivana. Aquela era a noite do ranzinza, a noite na qual o “lobo da estepe” uivaria mais alto. Além de derrotar o demônio, ganhou dezenas de seguidores e ainda "salvou" a princesa.

Fechamos a conta lá pelas 2 da manhã, quando o bar estava fechando. Sugeri a saideira no Espetinho Angorá. Pra minha surpresa, Pezinho não aceitou o convite, pois Arlete já estava querendo ir embora. Ivana também tinha um compromisso cedo, no dia seguinte. Então, fomos apenas eu e Dust.

- Olha aí o Mussum! Vai de quê, Dust?
- Um de queijo coalho e um de gato mesmo. Traz um chope também!
- O mesmo pra mim, Mussum!

Estava preocupado com Dust. Nunca tinha visto o cara bêbado. Ele era do tipo durão, que poderia beber uma noite inteira e jogar futebol na manhã seguinte, mas, naquela noite, já estava “pra lá de Bagdá”.

- Ô Dust, você ainda vai beber?
- Claro. Eu estou ótimo!
- Não parece não. Já está falando meio embolado e seus olhos já estão bem vermelhos.
- Relaxe, Marcão. Eu tenho a visão além do alcance... hehehe
- E o lance com a Ivana? Acha que dá futuro?
- Marcão, eu vou te confessar uma coisa: Sempre fui louco pela Ivana. Mas não achava que ela me daria uma chance. Depois que conheci aquele namoradinho dela, playboyzinho e bobão, perdi as esperanças. Fiquei tão decepcionado com ela, que pensei até em ignorá-la como amiga. Uma mulher tão inteligente e graciosa, jogando fora seu tempo com um idiota acéfalo como aquele.

- Ah Dust, você sabe que a mulherada não escolhe muito bem...
- Por conta desta frustração, acabei escrevendo uma teoria genial.
- Mais uma? Sobre o quê?
- Sobre satisfação em relacionamentos afetivos.
- Conta aí, então!
- Marcão, é um assunto um pouco extenso pra...
- AH DUST, pode falar! Agora eu fiquei curioso...

Dust respirou fundo, colocou no rosto aquela expressão de indiferença e, alisando a barba, começou:

- Quando estamos formando nossa personalidade, nos deparamos com muitos sentimentos, influências e novas experiências de vida. Diante de tudo isso, utilizamos nosso discernimento e percepção para criar, utilizando diversos níveis de consciência, três conjuntos imaginários de elementos afetivos. Vou falar dos dois primeiros, depois explico o último. Você tem uma caneta aí?

- Ô MUSSUM!!! Arranja uma caneta aí!
- NÃO TEM NÃO, MARCÃO!
- DEIXA DE PREGUIÇA, VELHO! CONSEGUE AÍ!
- PORRA, VOCÊS SÓ ME DÃO TRABALHO! TODO MUndo chega aqui come, bebe e vai embora e vocês nãããão... Têm que ficar pedindo o que não tem, pedindo caneta, pedindo tudo! Só podiam ser amigos do Pezinho que é outro folgado...
- Continua, Dust!
- O primeiro é o de “Necessidades Afetivas”, “que é o que contém tudo aquilo que desejamos, tudo aquilo que nos faz bem e que acreditamos precisar para atingir, em um relacionamento afetivo, a plena felicidade. Este conjunto é formado, principalmente, a partir dos princípios, comportamentos e convicções que vamos considerando valiosos, corretos e adequados, ao longo da vida. Costumo apelidar este conjunto de “demanda”...
- TAÍ A CANETA, MARCÃO!
- E o chope? E os espetinhos? Nem papel você trouxe, rapaz!
- PORRA! EU TOU TRABALHANDO, RAPAZ! NÃO TÁ VENDO QUANTA GENTE EU TOU ATENDENDO?
- Ô Mussum, pega lá, velho! Já tem um tempão que a gente pediu...
- TÁ, TÁ, TÁ! VOU PEGÁ! ANO QUE VEM EU SAIO DESSE SIRVIÇO E VÔ LÁ PRA CONCEIÇÃO CUIDAR DA HORTA DE MINHA VELHA PORQUE Não dá pra ficar aqui se acabando de trabalhar e neguinho só reclamando e enchendo o saco porque uma porra de um espetinho de gato demora de chegar...

Enquanto Mussum se afastava resmungando, Dust já tinha começado a rabiscar em um guardanapo o seu modelo. Impressionante como o cara conseguia desenhar tão bem, após ter tomado um balde de álcool:



- Marcão, eu tô usando uma simplificação aqui. Elaborei um modelo matemático mais complexo, mas não vou parar agora pra explicar, pois você já tá meio sonolento...
- Tudo bem Dust. O que significam esses números aí?
- Bom, em resumo é o seguinte: O conjunto “demanda” possui essa camada mais externa, onde estão os elementos de valor 1. O núcleo das necessidades possui elementos de valor 3, ou seja, são os mais relevantes e intimamente importantes para o indivíduo. Este, ao longo da vida, pode até acreditar que outros elementos presentes fora do núcleo sejam os principais, mas quando, em algum momento, receber aqueles que estão no núcleo, será arrebatado por uma sensação de prazer e satisfação tão grande, que rapidamente perceberá que aqueles sim são os mais relevan...
- E QUANDO o cara fica satisfeito?
- O indivíduo está plenamente satisfeito em seu relacionamento quando encontra alguém que possua em seu conjunto “oferta” (que eu vou explicar daqui a pouco) os elementos do núcleo do conjunto “demanda”. Mas é necessário que a ofertante doe efetivamente tais elementos, entendeu?
- Então quer dizer que o “ofertante” tem que entregar os elementos de valor 3 para o “demandante”. E se faltar algum elemento 3, não dá certo de jeito nenhum?
- Pode dar. Mas para suprir um elemento de valor 3, é necessário que o ofertante entregue 3 elementos valorados como 1 no conjunto do demandante. É mais ou menos uma função matemática. Você consegue perceber isso, né?
- Sim, então se um ofertante só possuir somente características de valor 1 para um demandante, ainda assim é possível haver realização...
- Isso mesmo! Por exemplo: Uma mulher adora homens com corpo malhado, estilo esportista, saradão. Todos os namorados dela foram assim. Ou seja, o corpo do homem pra ela é um elemento de valor 3 no conjunto demanda. Um gordinho não poderia doar este elemento (a não ser que faça um baita tratamento estético), mas pode doar 3 elementos psicológicos de valor 1 que substituirão o físico de valor 3, como por exemplo, ele pode ser carinhoso, inteligente e ter um bom emprego, características presentes no conjunto demanda da garota com valor 1. Logo, 3 elementos de valor 1 substituem 1 elemento de valor 3.
- Ok, Dust. Mas e o conjunto “oferta”, tem esses valores também?
- Sim. Porém, o conjunto “oferta” é um pouco mais complicado que o “demanda”. E é normalmente o que gera os maiores problemas nos relacionamentos, porque o “ofertante” acaba tendo que ter sua oferta aceita para aumentar a satisfação do relacionamento. Ou seja, tanto o que você dá, como o que recebe, deve ser valorizado pelo companheiro.
- Dust, agora eu não entendi...
- Imaginei, Marcão. Então, vou desenhar. Pô, cadê nossos espetinhos?
- Mussum tá chegando, aí atrás de você...
- MARCÃO, O CHOPE TÁ GELADO, MAS O ESPETINHO VEIO FRIO. A CULPA NÃO É MINHA. O GALEGO TIROU LÁ DA CHAPA E BOTOU NO BALCÃO, MAS NUM ME AVISÔ QUE ERA DOS MEUS PEDIDO.

A gente quase sempre fica com raiva do Mussum, mas o cara é boa gente. Sofrido que só. E honesto. Já foi limpador de fossa, auxiliar de pedreiro, cortador de cana, camelô e outras funções bastante nocivas à saúde. Uma delas foi a de operador de britadeira, o que tirou boa parte de sua audição. O coitado mal ouvia a própria voz, por isso gritava tanto. Além disso, sempre suspeitamos que ele não bate bem da cabeça, pois está sempre balbuciando alguma coisa, falando sozinho e nunca consegue atender aos pedidos direito. Isso é o que faz muitos turistas reclamarem do atendimento dos bares de Salvador. Para pagar o mínimo possível, os empresários contratam pessoas como o Mussum, incapazes de fazer um trabalho bem feito. Por outro lado, se os patrões não dessem a oportunidade de pessoas como o Mussum fazerem algo mal feito, o que elas fariam?

- Tá bom, Mussum. Valeu! E aí, Dust? outro desenho?



- Sim. Este é o conjunto “oferta”. Seus elementos são todas aquelas características do indivíduo que afetam seu companheiro ou companheira. Por exemplo, ser inteligente, compreensivo, carinhoso, bonito e por aí vai.
- Por que os elementos agora estão misturados?
- Pelo fato de as pessoas buscarem, geralmente, oferecer um conjunto predeterminado de elementos que não se baseia no julgamento individual do que é bom, importante e desejável. Normalmente, este conjunto é formado pelos elementos que são socialmente relevantes, por aquilo que os grandes atores político-econômicos ditam como sendo o que é bom. Por isso este núcleo é enfraquecido. Ao invés de oferecer aos outros aquilo que temos de melhor, insistimos em oferecer o que o mundo diz que é melhor. E, no conjunto de características que o mundo define como sendo as mais desejáveis, estão aquelas que são mais difíceis para a maioria das pessoas obterem. .. Marcão, eu não vou comer essa porcaria aí não. Vá em frente!
- Nem eu. Deixa aí. Eu não entendi direito essa parte do núcleo do conjunto. Você pode expli...
- MARCÃO, sua capacidade cognitiva anda meio “down”. Minha explicação foi clara, mas vou te dar um exemplo pra facilitar sua vida. Olha aí o caso de Pezinho e da Arle...
- MAS logo o Pezinho? Não tem um exemplo melhor?
- Mas o Pezinho é um ótimo exemplo, Marcão. Ele está entrando no que chamo de “realinhamento positivo de foco”, o que gera a “valorização marginal da oferta”, ou seja, os elementos que ele está oferecendo estão sendo, agora, os de maior valor, e não os que estão presentes no núcleo do seu conjunto “ofer...
- PERAÍ, Dust! Você acha que Pezinho tá mudando mesmo?
- Não é isso, Marcão! Você não entendeu minha teoria, né?
- Você acredita que Pezinho mudou mesmo?
- Cara, tá difícil conversar contigo hoje. Estamos contextualizando situações no âmbito de um modelo. Não me interessa essa ladainha de “fulano mudou ou não mudou”. Preste atenção e não me interrompa que você vai entender.
- Tá bom, Dust! Foi mal! É que já tomei muita cerve...
- O PEZINHO sempre ofereceu às mulheres apenas elementos do seu núcleo. Ele sempre acreditou que o que deve oferecer é beleza física, contas pagas em bares, restaurantes e motéis caros, carro novo, estilo de vida boêmio, postura de macho dominador e valentão, dentre outras. Digamos que ele oferecia estes elementos daqui:



- Ok, Dust!
- Por conta disso, ele sempre atraiu e se envolveu com mulheres que possuíam tais elementos no núcleo dos seus conjuntos “demanda”. São mulheres como aquelas que ele sempre nos apresentou, de baixa estirpe e categoria, interesseiras e desprovidas de inteligência, típicas “piriguetes”. Era isso o que acontecia:



- Sim, Dust! Você soube daquela que roubou a carteira dele naquele dia do...
- COMO você pode perceber, a piriguete tinha seu núcleo de demanda atendido, mas o Pezinho, mesmo assim, nunca ficava plenamente satisfeito, pois a sua oferta, apesar de aceita, era composta de vários elementos de baixo valor. Foi aí que ele encontrou Arlete em seu caminho. O conjunto “demanda” da Arlete possui em seu núcleo elementos que, apesar de estarem presentes no conjunto “oferta” do Pezinho, este não os oferecia. Possivelmente, tais elementos não eram integrantes do núcleo do seu conjunto “oferta”. Então, como o que ele oferecia às outras não funcionou com Arlete, Pezinho, intrigado, passou a oferecer outros elementos do seu conjunto “oferta”. Inclusive, elementos que não integram o seu núcleo. Apelidei este fenômeno de “Método das Tentativas de Oferta”. E sabe o que aconteceu? Preste atenção:



- Entendeu, Marcão? A satisfação geral do relacionamento alcançou o ápice, pois os elementos mais valorados do conjunto “oferta” de um, encontraram os elementos mais valorados do conjunto “demanda” do outro. Neste momento, o relacionamento encontra-se no que chamo de “Estado de Equilíbrio Positivo”.
- Mas você acha que Pezinho está sendo sincero mesmo, Dust?
- Claro que existem também as ofertas virtuais, que ocorrem quando uma pessoa oferece algum elemento que não está em seu conjunto “oferta”. Mas uma das leis de minha teoria afirma que um elemento virtual tem duração limitada e não se torna real, em hipótese alguma. Logo, o elemento virtual irá gerar frustração e decepção da parte enganada, em um futuro próximo. A verdade liberta.
- Ah Dust. Então eu acho que o Pezinho está usando elementos virtuais pra iludir a Arlete...
- Eu tenho certeza que não. Muito pelo contrário. Pezinho agora está usando os elementos de maior valor do seu conjunto “oferta”, como eu te mostrei. É que, antes, ele vinha usando o seu núcleo, que, como sabemos, não era lá muito bem formado...
- Como é que você sabe disso?
- É muito simples. Você sabe que Pezinho é bondoso, fiel e compreensivo com os amigos dele. Ele faria de tudo pra nos ajudar em um momento de necessidade. Além disso, sempre jogou limpo conosco. Sempre foi sincero, honesto e nunca teve vergonha de pedir desculpas quando fez bobagens. Não é verdade?
- Verdade, Dust. Você tem razão.
- Logo, essas virtudes fazem parte do seu conjunto “oferta”, mas, por alguma razão, ele utiliza um núcleo diferente pra cada tipo de relação. Um para a família, um para os amigos e outro, o pior deles, para as mulheres. Dust está no grupamento de pessoas que chamo de “Indivíduos Multinucleados”. Mais ou menos isso aqui:



Na verdade, eu sempre achei que o núcleo do conjunto “oferta” que ele usava para as mulheres era composto, basicamente, de elementos virtuais. Ele é pobre e anda com roupa da moda, ele tem um carro que está bem acima da sua faixa de renda e mal tem dinheiro pra botar gasolina, ele é um cara inteligente, mas investe numa postura “Bad Boy” para paquerar. Além disso, existem aspectos catalisadores...
- PESSOAL, ACABOU A FARRA! A DONA MANDÔ FECHÁ! TA AÍ A CONTA DE VOCÊS.
- Pois é, Marcão. Mais uma teoria que eu não consigo terminar de te explicar...
- Pô, Dust! Esta me deixou curioso. Quero conhecer o restante da... Ô MUSSUM! ESTA CONTA NÃO É NOSSA!!!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Pezinho - Parte 2


Aquele era o embate do século. Final do campeonato anual de xadrez da UFBA, do ano de 2004. E desta vez com uma novidade: Depois de alguns anos sem participar da competição, Mum-Rá estava de volta. Segundo contam, Mum-Rá teria ganhado todos os campeonatos dos quais participou, desde o primeiro, em 1965, até o de 2000, quando resolveu abrir mão de competir. Ele não divulgou o motivo de sua abstenção, mas diversos boatos floresceram nos corredores da universidade.

Uns diziam que ele já havia se convencido de que não encontraria um jogador à altura, outros diziam que o cérebro dele já funcionava como um computador, e que o “bug do milênio” teria danificado a região responsável pelo raciocínio lógico. Também havia os mais “exotéricos”, os quais especulavam que ele tinha um pacto com o diabo, que o fazia ser foda em tudo, mas o chifrudo teria desistido deste acordo nos últimos anos, pois havia cansado de esperar pela morte de Mum-Rá. O fato é que todos, alunos e professores, torciam pela derrota do velhaco, pois todos o detestavam.

Mum-Rá era chefe do departamento de Ciência da Computação e professor de algumas matérias do curso. Segundo ele, seu currículo era tão vasto que seriam necessárias duas aulas inteiras para relatar um resumo dele. Citava sempre, no início de cada semestre, seu mestrado em Harvard, doutorado em "Machachutes", PHD na Indiana State University e seu contrato de consultor da IBM, a qual pagava uma fortuna apenas para que ele aparecesse nos Estados Unidos uma vez por mês. Também se gabava de ter sido um dos projetistas responsáveis pela construção do IBM Deep Blue, o computador que derrotou o campeão de xadrez Garry Kasparov, em 1997. Obviamente, todos pesquisavam a veracidade de tudo que ele dizia. E todos sempre acabavam concluindo que era tudo verdade mesmo. O cara era fodão!

Como era praticamente um deus, devia ser humilhante pra ele desperdiçar seu tempo divino com essas baratinhas sujas e cheias de sonhos medíocres chamadas "estudantes". Ninguém entendia sua motivação de continuar dando aulas. O índice de reprovação em suas turmas era sempre superior a 70%, exceto quando havia alguma garota bonita na sala, pois ele aliviava a cobrança pra ajudar a pobre donzela. Apesar de carrancudo e detestável, parecia gostar da fruta. Porém, não existem registros de que tenha conseguido "papar" alguma garotinha ao longo de sua carreira.

Vários alunos haviam sido jubilados ou teriam desistido do curso por causa de Mum-Rá. Alguns vinham atrasando a formatura, na esperança de que ele se aposentasse, para cursar as matérias com outro professor. Quando alguma garota bonita confirmava sua matrícula em uma matéria de Mum-Rá, a turma ficava lotada, faltava vaga pra quem queria. O problema é que anos se passavam sem que uma garota bonita entrasse naquele curso. Na minha turma, por exemplo, havia apenas 2 garotas. Uma pesava umas 10 arrôbas e a outra tinha mais pêlo no rosto que a maioria dos meus colegas.

- MARCÃO!!! MARCÃO!!! Chegou atrasado, negão!
- Pezinho, eu tava lá na faculdade de música. Tou cursando uma matéria optativa lá. Peguei o maior engarrafamento pra chegar aqui...
- Rapaz, é a partida final. Tá um a um. Mum-Rá ganhou a primeira e Dust a segunda.
- Cara, você já tá fedendo a cachaça! Não ia rolar uma banda de Rock aí?
- A banda parou pra ver a partida. Olha lá! Os caras tão ali.
- Rapaz, que multidão! Aquele ali é o reitor?
- É ele mesmo, Marcão. Ele também é inimigo do Mum-Rá! Este filadaputa tem que se fuder HOJE!

Pezinho, que já tinha perdido duas vezes uma matéria com Mum-Rá, pertencia ao time dos que esperavam ele se aposentar, ou, de preferência, morrer. Pelo visto, Pezinho teria uma alegria naquela noite. Mum-Rá demonstrava muita tensão. O rosto vermelho e contraído, as bochechas trêmulas e a camisa social encharcada de suor. Dust estava do mesmo jeito de sempre. Olhar indiferente, relaxado, cabeça pendendo sobre o ombro esquerdo... De vez em quando, dava umas coçadinhas na barbicha e olhava vagamente para o teto, como se estivesse pensando no que iria comer mais tarde. Aquela postura do Dust intimidava demais. Mum-Rá devia estar se sentindo um palerma, uma presa que caiu em uma armadilha e ainda está procurando entender como isto aconteceu.

O fim era iminente e a platéia pressentia o momento chegando. Foi aí que um grupo de nerds iniciou um coro peculiar: Quando era a vez do Dust jogar, eles começavam a sussurrar “Thunder! Thunder! Thunder!...” e iam aumentando o volume até virar um grito de guerra. Quando era a vez do Mum-Rá, todos se calavam e o silêncio era mórbido. Pezinho, além de bêbado, já estava à beira de um ataque e não gostou nada da cantoria:

- Ô CARA DE KOMBI!!! QUE PORRA É ESSA? VOCÊS VÃO ATRAPALHAR O CARA!!!
- Pezinho, não fui eu quem começou isso não!!!
- CLARO QUE FOI!!! ESSA MERDA COMEÇOU AÍ E EU JÁ TOU PUTO...
- thunder! Thunder! THunder!THUnder!THUNder!
- Vá à merda, seu bêbado! Eu também tou tentando prestar atenção no jogo!
- MESMO BÊBADO, EU POSSO ARREBENTAR SUA CARA, SEU IMBECIL! VOCÊ ACHA QUE EU TENHO MEDO DE VOCÊ! VOCÊ É FORTE, MAS NÃO PÁRA BALA! EU SOU DO MAL, NEGÃO! SE EU FOR ATÉ AÍ...
- Então venha, seu pé de alface!!! Nem arma você tem! Pra andar armado o cara tem que ter coragem!
- thunder! Thunder! THunder!THUnder!THUNder! THUNDer! THUNDEr!

Aí foi que a merda foi pro ventilador. Pezinho, um pobre bebum de pouco mais de metro e meio e pouco menos de setenta quilos, partiu pra cima de Cara de Kombi, que era uma "tora" de um e noventa e uns cem quilos de massa muscular, praticante de jiu jitsu e que tinha como hobby arrebentar “playboys” nas saídas das boates da cidade. Felizmente, vários colegas estavam entre eles, e evitaram a tragédia. Na verdade, Minduim, um nerd minúsculo, foi forte o suficiente pra segurar o Pezinho, em seu frenesi insano de fúria indomável. Cara de Kombi já prestava atenção ao jogo novamente. Conhecia o Pezinho...

- thunder! Thunder! THunder!THUnder!THUNder! THUNDer! THUNDEr! THUNDER!
- Ele tem sorte, Marcão! Se esses caras não me seguram ele ia ver só uma...
- CALA A BOCA, PEZINHO! Só tem um cara aí te segurando. E é o Minduim!

Pezinho olhou sobre o ombro meio desacreditado e confirmou que era mesmo o Minduim que o mantinha imobilizado. Além disso, viu que Arlete estava chegando e, pela cara dela, já tinha visto ou ouvido falar da encrenca que ele tinha criado. O valentão engoliu em seco e calou a matraca.

- Minduim, pode soltar este elemento!
- Tem certeza, Arlete? Ele tá meio nervoso...
- Pode soltar! Adailton, precisamos conversar.
- thunder! Thunder! THunder!THUnder!THUNder! THUNDer! THUNDEr! THUNDER!
- Pô, amor! Vamo ver o final do xadrez...
- Adailton, eu não vou ficar aqui. Se você não vier conversar comigo agora, eu vou embora sem nem falar com você.

Arlete levou Pezinho pro canto e o detonou! A conversa deles foi rápida, durou apenas uns 3 “Thunder” e ela foi embora furiosa. Pezinho voltou pro grupo, cabisbaixo, destruído e quase sem voz. Acho que passou até o efeito da cachaça.

- Como tá o jogo, Marcão?
- Cara, parece que tá num momento crucial. É a vez do Mum-Rá. Ele tá pensando há uns 10 minutos e nunca pareceu tão nervoso. Olha lá as mãos dele! Estão tremendo demais...

Dust agora coçava a bochecha e olhava calmamente para o tabuleiro. Quando Mum-Rá fazia qualquer menção de que iria jogar, Dust olhava bem nos olhos dele. Um olhar que passava uma mensagem do tipo: “Um vacilo e eu acabo com você, seu verme!”. Mum-Rá hesitou inúmeras vezes. Provavelmente, por estar intimidado e amedrontado, deve ter desistido de jogadas arrojadas, que poderiam definir o jogo em seu favor. Lembrei do Roberto Baggio na final da copa. O gol poderia ser 10 vezes maior e mesmo assim aquele italiano chutaria pra fora.

- Marcão, Arlete tá puta da vida comigo!
- Com razão! Você convida a garota pra vir aqui, e quando ela chega te encontra bêbado e arrumando briga!
- Eu acho que ela nem vai mais querer me ver. Eu sou um merda mesmo!
- Não seja tão duro, Pezinho. Você é apenas um bêbado, irreponsável, inconseqüente e que não sabe tratar uma mulher que... Olha lá! Que é aquilo? Deram uma vassoura pro Dust?
- Não entendeu, Marcão? Aquela é a espada justiceira. Não teve infância não, negão?

Dust deitou a vassoura em seu colo e manteve sua postura tranqüila e zombeteira. A platéia já estava impaciente com a demora de Mum-Rá. Ouviam-se "Joga logo, sua múmia!", "Invoca os espirítos do mal!", "Se cuida, Dust! Ele vai se transformar!" e muitas gargalhadas. Que noite divertida aquela.

Quando Mum-Rá finalmente curvou-se sobre o tabuleiro e pegou uma das peças, todos se calaram. Não se ouvia nem respiração. Olhei para o pessoal da primeira fila, que observava o jogo bem de perto, e percebi que algo importante estava prestes a acontecer. Eles eram os jogadores desclassificados, eram bons, entendiam daquela porcaria e agora carregavam uma expressão enigmática nos rostos. Um cochichava algo no ouvido do outro, faziam caretas, cerravam os olhos e franziam a testa. Nenhum sorriso. Não cheguei nem perto de decifrar o que pensavam. Mum-Rá concluiu sua jogada. Era a vez de Dust. A platéia estava tão tensa que esqueceu de fazer o canto do "Thunder".

- Porra, Marcão! Acho que vou ter um enfarto! Me dá um gole dessa cerveja aí!
- Cala a boca! Eu acho que o jogo acaba agora!
- Cara, tem que acabar logo. Tenho que ir lá na casa da Arlete, pedir desculpas a ela!
- Ohhh! Upgrades... Você pedindo desculpa a mulher... Não achava que presenciaria este fato em minha vida.
- Marcão, olha lá! Acho que Dust vai jogar!

Existem momentos da vida em que a tênue fronteira entre o fracasso e o sucesso absoluto resume-se à sua capacidade de manter a mente funcionando, em meio a sobrecargas de adrenalina, tremores na barriga, calafrios, transpiração e temor. Estes momentos são inesquecíveis, mudam sua vida para sempre e resumem radicalmente dias, meses ou anos de sua história em apenas uma frase. O esforço só traz orgulho se você vence nestes momentos. De outro modo, o esforço transforma-se, num piscar de olhos, em tempo perdido.

Você pode estar totalmente preparado para realizar uma tarefa, sem muito esforço ou concentração, mas quando realizá-la significa algo de extrema importância, com certeza, alguns pequenos demônios vão tentar se apoderar dos seus sistemas digestivo, locomotor, neurológico e até da sua alma.

E, com a presença deles, nada é fácil.

A não ser que você seja o Dust, que nunca fica nervoso e nem se importa com este blá blá blá de medo, tensão, frio na barriga e nem com porra de diabinho...

- Pezinho, Dust levantou a vassoura! Olha lá! Que é que ele vai fazer?
- É a espada justiceira, Marcão! CARALHO! Arlete nem atende a porra do celular!

Foi aí que Dust, gesticulando com uma das mãos, cobrou da platéia o coro. Sua torcida atendeu, já começando a plenos pulmões:

- THUNDER! THUNDER! THUNDER! THUNDER! THUNDER! THUNDER!

Todos berravam o mais alto que podiam:

- THUNDER! THUNDER! THUNDER! THUNDER! THUNDER! THUNDER! THUNDER! THUNDER!

Até que, finalmente, Dust encarou Mum-Rá, que já aparentava a exaustão de um soldado baleado e faminto, pegou uma peça, realizou sua jogada, levantou-se da cadeira, ergueu a vassoura o mais alto que pôde e gritou:

- THUNDERCAAAAAATS!

E a platéia delirante:

- HHHHHHOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!



[continua]